27 a 29 de setembro de 2016
Jataí - GO
UFG - Câmpus Cidade Universitária
ISSN 21781281
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Apresentação
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Apresentação

 

A partir do título da obra de Néstor García Canclini de 2008, Latino-americanos à procura de um lugar neste século, é possível fazermos a seguinte indagação: qual o lugar dos não europeus e estadunidenses neste século que já percorreu uma década?

Na atual conjuntura, em que milhões de refugiados seguem em marcha à Europa, e mesmo nas Américas, desnuda-se a terrível face da geopolítica global calcada historicamente na perspectiva eurocêntrica, de maneira que se retomam, mesmo que em configurações diversas, os pressupostos inseridos nas noções de civilização, alteridade e liberdade herdadas da razão iluminista. Assiste-se, no panorama mundial, a novos processos diaspóricos (transnacionais), como já alertava Spivak (1996). 

Assim, no século XXI, a estrutura de poder permanece organizada em torno do eixo colonial que o fim dos impérios e colônias formais dos séculos XIX e XX não eliminou. O poder dos Estados Unidos e de alguns países da Europa, sustentado pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, mantem as zonas periféricas numa situação colonial, ainda que já não estejam mais sujeitas a uma administração aos moldes coloniais.

O V Congresso Internacional de História quer questionar o poder que não se restringe ao viés econômico e político, mas se estende a toda a estrutura que envolve a vida das pessoas, sobretudo pelas veredas da cultura. A partir disso, a noção de violência epistêmica elaborada por Foucault (1997) deve ser ampliada, a fim de apontar para a alteridade nos campos do saber presente nas macroestruturas de longa duração. Em que pesem os processos de descolonização geopolíticos e administrativos que somente se encerraram na segunda metade do século XX, os efeitos do colonialismo ainda se fazem presentes do ponto de vista simbólico (mídia, indústria do entretenimento, moda) e epistemológico, uma vez que nossos currículos, teses e perspectivas teórico-metodológicas ainda se pautam majoritariamente nas teorias produzidas na América do Norte e na Europa.

Podemos afirmar que no campo cultural (processos de massificação) e acadêmico ainda não conseguimos nos desvencilhar dos pressupostos teóricos eurocêntricos. Vivemos, portanto, uma neocolonialidade. Devemos, assim, adotar o que Spivak (1990) considera um posicionamento filosófico desconstrutivo que (des)hierarquiza a relação entre o centro e a margem, que alguns autores como Ramón Grosfoguel (2008), José Marin (2014), Boaventura de Souza Santos e Maria Paula Meneses (2010) têm chamado de descolonialidade.

O ponto fulcral desses estudos reside na necessidade de tornar visíveis alternativas epistêmicas emergentes que permitam a crítica da “estrutura disciplinar do conhecimento moderno” (MENESES, 2008, p. 6). Para esses autores, a questão central é problematizar a dominação epistemológica do pensamento colonial que ainda se faz presente mesmo após os processos de independência política. De acordo com Maria Paula Meneses (2008), a problematização da pós-colonialidade se orienta por uma revisão e crítica da razão moderna, seja no campo da cultura, da história ou mesmo do conhecimento, a partir de uma ontologia que não seja erigida pelo Norte global. Para isso é necessário defrontar-se com as várias exigências que se impõem ao pesquisador ao revisitar esses conceitos, a saber: “a histórica, ou seja, a necessidade de repensar todos os passados e perspectivas futuras à luz de outras perspectivas, que não as do Norte global; a ontológica, que passa pela renegociação das definições do ser e dos seus sentidos; e, finalmente, a epistémica, que contesta a compreensão exclusiva e imperial do conhecimento, desafiando o privilégio epistémico do Norte global” (MENESES, 2008, p. 6).  

Assim, a proposta que ora apresentamos incide numa abertura para as reflexões de pesquisadores estrangeiros e brasileiros engajados nessa nova postura epistemológica frente à produção do conhecimento, a partir de uma epistemologia própria dos países e povos subalternizados, seja na África, Ásia ou América Latina, caracterizando uma epistemologia do Sul.


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